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Haddad: ‘Tem acontecido um ataque ao BB por bolsonaristas, defendendo saques de valores do banco’



Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad 23 de agosto de 2025 | 20:00

Haddad: ‘Tem acontecido um ataque ao BB por bolsonaristas, defendendo saques de valores do banco’

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou neste sábado, 23, que o Banco do Brasil tem sofrido ataques por parte de bolsonaristas nas redes sociais.

“Tem acontecido ataque ao Banco do Brasil por parte de bolsonaristas na rede social, defendendo saques de valores do banco”, disse em entrevista à TV GGN.

“Há projetos de lei no Congresso para perdoar dívidas do agro, que não está com problemas, no Banco do Brasil. Está aumentando a inadimplência no Banco Brasil por uma ação concertada, uma ação deliberada de bolsonaristas que estão tentando minar as instituições públicas”, afirmou. “O fair play deu lugar para o vale-tudo e isso compromete muito a saúde da democracia brasileira”.

A fala do ministro sobre o BB se deu num contexto de crítica aos juros bancários, que ele classificou como “abuso no crédito” (leia mais abaixo).

O BB vem sendo questionado por seus resultados. No balanço do segundo trimestre, o banco viu seu lucro cair 60% em um ano, o que desagradou investidores do mercado financeiro.

Grandes produtores rurais, especialmente do Centro-Oeste e do Sul, estiveram no centro dos problemas na carteira de crédit odo banco que provocaram uma queda para 8,4% no retorno (ROE, na sigla em inglês) de abril a junho.

Ataques ao Banco do Brasil nas redes

Nesta sexta-feira, 22, o BB afirmou em nota que tem acompanhado o surgimento de “publicações inverídicas e maliciosas” nas redes sociais com o objetivo de gerar pânico e induzir a população a decisões que podem prejudicar a sua saúde financeira. O banco diz ainda que tomará todas as medidas legais cabíveis para proteger sua reputação, seus clientes e seus funcionários.

O banco cita que identificou publicações sugerindo retirada de depósitos do banco por parte dos clientes. “Declarações enganosas ou inverídicas que tenham como objetivo prejudicar a imagem do Banco do Brasil não serão toleradas”, diz o texto.

Na terça-feira, 19, o advogado Jeffrey Chiquini, defensor de Felipe Martins, ex-assessor da Presidência de Jair Bolsonaro, recomendou publicamente nas redes sociais que as pessoas tirem recursos que tenham no banco. “Meu conselho a você que tem conta no Banco do Brasil: tire seu dinheiro de lá”, escreveu na rede social X (antigo Twitter). A publicação, no entanto, foi apagada neste sábado, 23.

Na quinta-feira, 21, ele publicou: “Não é bravata, é realidade: o Banco do Brasil está pisando em terreno arenoso e assumindo o risco de ser sancionado pelo governo americano, podendo sacrificar todas as suas operações internacionais e ser multado em bilhões de dólares”.

A reportagem procurou o advogado, mas não obteve resposta.

Nesta semana, bancos brasileiros, incluindo o BB, viram suas ações desabarem nesta terça-feira, 19, após decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de que leis e decisões estrangeiras não se aplicam a brasileiros no Brasil – em meio à tensão sobre a Lei Magnitsky, aplicada pelos EUA ao ministro Alexandre de Moraes.

Moraes teve seu cartão de crédito da bandeira Mastercard, empresa americana, bloqueado, em razão das sanções da Magnitsky. Como mostrou a Coluna do Estadão, o Banco do Brasil, instituição em que o ministro tem conta, ofereceu a ele um cartão da bandeira Elo, que é nacional.

A preocupação dos analistas se deve ao papel que a companhia exerce no meio político. Isso porque o BB é responsável por pagar os salários dos ministros do STF, que têm sido alvo de críticas e sanções dos Estados Unidos por conta do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.

Sobre o assunto, o BB afirmou na quinta-feira que acumula sólida experiência em relações internacionais e está preparado paralidar com temas complexos ou sensíveis que envolvem regulamentações globais.

Na quarta-feira, 20, a presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, afirmou, sem citar nomes, que é “muita falta de responsabilidade” colocar em xeque a solidez e a integridade do banco.

“É muita falta de responsabilidade quando algum brasileiro vem colocar em xeque a solidez, a segurança e a integridade de uma empresa como o Banco do Brasil”, afirmou. “Que a gente não acredite em fake news. Que a gente não propague mentiras.”

Haddad critica juros bancários

Haddad destacou que, apesar da redução nas taxas de juros cobradas de trabalhadores, os valores ainda estão muito elevados e precisam ser tratados com seriedade.

“Quando o juro cai de R$ 7% para 3,5%, não há dúvida que há o que comemorar. Mas, anualizando, quanto trabalhador paga de juro? Compara com a inflação, compara com a Selic”, disse.

Segundo Haddad, o governo já está tomando providências para reduzir o spread (diferença entre o custo do dinheiro para o banco, o quanto ele paga ao tomar empréstimo, e o quanto ele cobra para o consumidor na operação de crédito).

“Os bancos sabem que o spread de juros está na agenda do governo; democratizar o crédito é importante”, afirmou, ressaltando que é preciso tirar o trabalhador da mão de agiotas e de instituições financeiras abusivas.

‘Diminuir gasto tributário não é aumentar imposto’

Na entrevista, Haddad defendeu que o ajuste fiscal promovido pelo governo Lula tem se apoiado principalmente no combate às renúncias fiscais, e não na criação ou elevação de tributos. “Diminuir gasto tributário não é cobrar de quem não paga ou aumentar imposto. Não é nada disso. Simplesmente nos recusamos a manter a renúncia fiscal no

Segundo o ministro, a estratégia foi fundamental para avançar na consolidação das contas públicas. “Em dois anos e meio, o ajuste fiscal foi feito em torno do combate às renúncias fiscais”, afirmou. Haddad ressaltou ainda o papel do Congresso Nacional na aprovação de medidas importantes, apesar das resistências.

“Bem ou mal, as pautas estão avançando no Congresso. Houve aprovação da reforma tributária, que foi a maior já feita no Brasil”, destacou.

O ministro da Fazenda afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu em 2022 um país em condições políticas muito distintas daquelas encontradas em seu primeiro mandato, em 2002. “Em 2002, Lula recebeu um país institucionalmente estável, um Congresso manejável, em que era possível conformar maioria com relativa facilidade”, disse Haddad.

Segundo o ministro, o cenário atual é marcado pela atuação de uma oposição que, em sua avaliação, não apresenta projeto de país. “Hoje a oposição bolsonarista não tem projeto para o país. O projeto deles é o país não andar, o país não evoluir”, afirmou.

Haddad destacou, porém, que não vê o Congresso Nacional como um obstáculo ao governo. “Não estou aqui criticando o Congresso Nacional como instituição. Tenho até agradecido, porque, bem ou mal, as pautas estão avançando”, afirmou.

Transformação ecológica e tecnologia

O ministro falou sobre as oportunidades do Brasil na transformação ecológica e no desenvolvimento tecnológico.

“Nós temos rigorosamente todas as vantagens competitivas. Temos o melhor vento, o melhor sol, a terceira maior reserva de terras raras e minerais críticos. É óbvio que isso vai exigir parceria, porque não temos toda a tecnologia disponível aqui, mas precisamos transformar isso em valor agregado, em emprego de qualidade, em tecnologia de ponta”, afirmou.

Haddad acrescentou que o Brasil precisa avançar na criação de empresas nacionais de tecnologia, principalmente no processamento de dados, já que hoje 60% das informações brasileiras são processadas fora do País.

“Imagina do ponto de vista de soberania, com as ameaças em curso, o que isso pode significar? Amanhã uma pessoa com viés autoritário pode querer prejudicar o Brasil”, alertou.

Leia também: BB identifica ação nas redes de bolsonaristas contra o banco e é pressionado a recorrer à PF

Leandro Silveira/Caroline Aragak/Estadão



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BB denuncia vídeo de Eduardo Bolsonaro por fake news e pede ação da AGU para evitar corrida bancária



Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados/Arquivo
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) 24 de agosto de 2025 | 10:02

BB denuncia vídeo de Eduardo Bolsonaro por fake news e pede ação da AGU para evitar corrida bancária

O Banco do Brasil denunciou à Advocacia-Geral da União uma série de postagens feitas na última semana nas redes sociais com informações falsas sobre o banco e incitando a retirada maciça de recursos por correntistas.

Segundo ofício encaminhado pelo banco, os ataques nas redes sociais começaram na última terça-feira, 19. Entre eles, há um vídeo feito por Eduardo Bolsonaro no dia 20, em que o deputado federal afirma que “o Banco do Brasil será cortado das relações internacionais, o que o levará à falência”. Eduardo tem mais de 1,7 milhão de seguidores em seu canal no Youtube.

A reportagem procurou o deputado, mas ainda não obteve resposta.

A presidente do banco, Tarciana Medeiros, reclamou publicamente desse movimento em evento no dia 20, sem citar nomes.

O BB denunciou outros autores, como o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) e o advogado Jeffrey Chiquini, que defende o ex-assessor da Presidência do governo Jair Bolsonaro Filipe Martins, com postagens, segundo o banco, difamatórias e contra a soberania nacional.

Na comunicação à AGU, os advogados alertam que esses ataques podem configurar crimes contra o Estado Democrático de Direito, contra a soberania nacional, contra o Sistema Financeiro Nacional, além de representar violação de sigilo bancário e difamação. Por isso, o BB quer que a AGU avalie a ação na Justiça para coibir a disseminação desse tipo de informação.

As postagens mencionadas foram feitas no X, no Instagram e no Threads, além de vídeos no Youtube.

“A nova estratégia consiste em coagir, ameaçar e colocar instituições financeiras integrantes do Sistema Financeiro Nacional, notadamente o Banco do Brasil, contra o Supremo Tribunal Federal”, afirma o BB, no mesmo ofício.

A informação de que o BB havia comunicado a AGU sobre as postagens foi revelada pela Folha de S.Paulo e confirmada pelo Estadão.

‘Do dia para noite, surgem especialistas em Lei Magnitsky’

No documento, a que a reportagem teve acesso, o BB relata à AGU que a campanha pode levar à uma corrida bancária contra a instituição, em razão de entendimentos falsos e incorretos sobre a aplicação da Lei Magnitsky e as consequências para o banco.

Na semana passada, o BB cancelou o cartão internacional do ministro Alexandre de Moraes, de bandeira Mastercard, como consequência da aplicação da medida restritiva decretada por Donald Trump. No lugar, ele recebeu um cartão com da Elo, bandeira brasileira cujos acionistas são o próprio BB, além da Caixa e do Bradesco.

“O cenário de risco é que, do dia para noite, e cada vez mais, surgem especialistas em Lei Magnitsky, formados em redes sociais, que recomendam a retirada de recursos de bancos brasileiros, especialmente do Banco do Brasil, controlado pelo Estado brasileiro”, afirma o BB. “Esse raciocínio enviesado, que pode fomentar uma corrida de clientes para retirada de recursos de instituições financeiras brasileiras, sem qualquer conhecimento de causa, gera tensão em seus clientes e risco à economia nacional.”

O banco relatou que, em razão da campanha, clientes começaram a pedir “esclarecimentos pelo temor de sanções secundárias falsamente propagadas”.

No sábado, 23, os ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) atribuíram essa campanha nas redes sociais a bolsonaristas.

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Mariana Carneiro//Estadão



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Famílias brasileiras usam quase 10% do orçamento para pagamento de juros



Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil/Arquivo
Comprometimento do orçamento com débitos no país é quase o triplo da média de nações desenvolvidas 24 de agosto de 2025 | 11:21

Famílias brasileiras usam quase 10% do orçamento para pagamento de juros

As famílias brasileiras comprometem quase 10% da renda apenas com o pagamento de juros, em um sintoma da baixa qualidade do endividamento do brasileiro, composto em sua maior parte por obrigações de curto prazo e taxas elevadas.

Em maio último, mostram dados do Banco Central, esse peso alcançou 9,86%, o maior da série histórica iniciada em 2005 e pouco acima do patamar atingido em 2023, quando houve o lançamento do programa Desenrola, criado para estimular a renegociação de débitos.

Atualmente, o equivalente a 27,79% da renda das famílias é direcionado ao pagamento de amortização de dívidas mais os juros —ou seja, as taxas representam mais de um terço do total.

Esse percentual é quase o triplo da média de 17 países desenvolvidos, cujos dados de dívidas das famílias em relação à renda são disponibilizados pelo BIS (Banco de Compensações Internacionais). Nos Estados Unidos, por exemplo, as famílias destinam o equivalente a 8% do orçamento ao pagamento de dívidas, e no Japão, o peso é de 7,8%.

“No mundo todo existe comprometimento de renda com dívidas. A diferença é que no Brasil a maior parte é com débitos relacionados a cartão de crédito ou empréstimo pessoal, que possuem taxas maiores”, afirma Rafael Schiozer, professor titular de finanças da FGV-EAESP.

Números do BC ajudam a explicar essa diferença. O comprometimento da renda das famílias brasileiras especificamente com o crédito imobiliário, que possui os menores juros entre as diferentes modalidades de empréstimos e é acessível a poucos brasileiros, é de apenas 2,13%.

Ou seja, o restante, ou 25,66% do comprometimento da renda das famílias brasileiras, roda a juros mais altos.

Estêvão Kopschitz, economista do Grupo de Conjuntura do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), aponta que grande parte das dívidas brasileiras é formada por operações de crédito de curto prazo, que são exatamente as que possuem taxas maiores.

“Em países desenvolvidos, o endividamento das famílias é bastante voltado para pagar crédito habitacional, que tem a garantia do próprio imóvel e que não possui um peso tão grande na despesa mensal porque os juros são baixos”, afirma.

SINAL AMARELO

Os dados do BC mostram que o peso do pagamento de juros sobre o orçamento familiar teve um pico em 2023 e caiu em 2024, mas voltou a crescer do final do ano passado para cá. Essa piora no cenário tem a ver com dois fatores: uma combinação perigosa de juros mais altos e mais crédito.

Em junho, último dado disponibilizado pelo BC, a taxa média anual do crédito pessoal estava em 58,3%, o maior nível desde maio de 2023. Ao mesmo tempo, nos últimos dois anos o saldo de crédito com recursos livres (que exclui os empréstimos imobiliários) saltou 23,4%.

Fábio Pina, assessor econômico da FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo), aponta que o crédito cresceu impulsionado pelo emprego e renda mais robustos dos últimos anos.

“O que explica o crescimento do peso dos juros é o fato de que tenho emprego e renda aumentando, o que na percepção do setor financeiro reduz um pouco o risco e eleva o crédito. Isso aconteceu apesar de as taxas de juros terem aumentado”, diz.

Na avaliação dele, o Brasil vive um momento de “sinal amarelo” em relação ao endividamento. Após recuar de um pico alcançado em 2023, o calote de mais de 90 dias das pessoas físicas voltou a se elevar para 6,3%, segundo o último dado do Banco Central.

O assessor econômico da FecomercioSP é autor de um estudo que mostra que os gastos com juros dos lares brasileiros cresceram 20,5% em 2024 na comparação com o período anterior. Mas, no mesmo período, a massa de renda anual das famílias avançou apenas 3,2%.

O aumento na educação financeira é apontado pelos especialistas como necessária para ajudar a reduzir o endividamento ruim, mas não é considerada uma bala de prata.

“O Brasil precisa de mais educação financeira. Já melhorou muito, existe uma iniciativa do Banco Central, por exemplo, de educação financeira nas escolas. Mas é necessário também um comportamento individual das pessoas, de se conscientizarem de que tomar crédito de curto prazo é mais caro”, afirma Kopschitz, do Ipea.

Para Schiozer, é necessário um consumo mais cuidadoso. “Evitar o superendividamento é, em essência, ter um consumo compatível com a renda. Sou um pouco cético em relação à educação financeira como bala de prata, acho que muitas pessoas têm consciência de que estão gastando mais do que ganham. Então na verdade o que é mais necessário é uma mudança de hábitos.”

Ele cita um estudo do Banco Central que mostra que o incentivo ao crédito consignado (com desconto em folha de pagamentos) pode ter um impacto negativo no consumo de longo prazo. “Depois de dois, três anos, as pessoas tiveram uma redução de consumo muito maior do que a alta logo que tomaram crédito. É um exemplo da consequência de longo prazo do superendividamento”.

Maeli Prado/Folhapress



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Cenário de mundo dividido por Trump gera atraso na transição energética, afirma CEO da Shell



Foto: Divulgação/Shell
Cristiano Pinto da Costa, CEO da Shell Brasil 24 de agosto de 2025 | 11:41

Cenário de mundo dividido por Trump gera atraso na transição energética, afirma CEO da Shell

O tradicional estudo anual dos cenários que a Shell elabora desde a década de 1970 para embasar suas decisões estratégicas vai ser divulgado nesta segunda (25) com novas perspectivas sobre o futuro da energia no mundo. Segundo Cristiano Pinto da Costa, CEO da Shell Brasil, foi introduzido um outro cenário, contemplando os efeitos da inteligência artificial, que elevará a demanda energética.

Enquanto o presidente americano Donald Trump avança com sua política tarifária, o cenário que se destaca é aquele que a empresa chama de Arquipélagos e retrata um mundo nacionalista, com pouca cooperação global.

“No cenário Arquipélagos, em que o mundo fica um pouco mais fragmentado, confrontacional e não colaborativo em relação a políticas de transição energética, cada país passa a olhar para o seu interesse próprio versus o interesse coletivo da humanidade em migrar para uma economia de baixo carbono. Esses elementos estão exatamente acontecendo agora e se materializando no que estamos vendo na política tarifária do governo americano”, diz.

Costa afirma que, desde 2024, a Shell vem preparando um estudo dos cenários com um recorte específico para o Brasil. Segundo ele, o material será a colaboração da Shell para o debate da COP30.

Pela frente, o executivo vê a demanda por óleo e gás estabelecida por décadas, independentemente do cenário, e reitera a decisão da empresa de frear projetos de energia solar devido à saturação do mercado.

Sobre o interesse da Shell, que no último leilão não fez ofertas na bacia Foz do Amazonas, na chamada margem equatorial, ele afirma que a ideia é focar na Bacia de Santos, onde já atua.

O que os cenários da Shell devem mostrar de diferente neste ano?

Há décadas, a Shell faz cenários globais de segurança e transição energética. Não é previsão de futuro. Tentamos vislumbrar caminhos que o mundo pode tomar e testamos as estratégias de negócio em cada um desses cenários, sabendo que trabalhamos em uma indústria que tem horizonte de muito longo prazo. Em 2024, pela primeira vez, nós trouxemos um recorte específico para o Brasil. Neste ano, a Shell atualizou os cenários globais, introduzindo um terceiro.

Um dos cenários, chamado Horizontes, desenha uma curva em que o mundo atinge emissões líquidas zero em 2050 e o que precisa acontecer para que esse objetivo se materialize.

O segundo cenário é chamado Arquipélagos. Nele, o mundo fica mais fragmentado, com brigas políticas entre países, que ficam mais protecionistas. Cada um olha mais para o seu interesse próprio, seu umbigo. Como consequência, o mundo demora mais para chegar nas emissões líquidas zero.

E o terceiro cenário, que foi introduzido neste ano, é chamado Surge. Ele traz um fenômeno recente, que é a digitalização e a inteligência artificial, que está trazendo um crescimento de demanda por energia. Os data centers estão demandando muito mais energia.

Estes cenários contemplam o clamor global por redução dos combustíveis fósseis?

Todos mapeiam os caminhos possíveis para evolução, crescimento ou declínio das diferentes fontes de energia.

No cenário Horizontes, esse declínio do consumo de energia fóssil é um pouco mais rápido. Nos cenários Surge e Arquipélagos, esse declínio é mais gradual. E o que é comum nos principais pontos de todos os cenários? Primeiro: o mundo continua demandando cada vez mais energia. Segundo: todos os cenários também demonstram um aumento da participação da eletrificação como forma de energia, em velocidades diferentes.

O terceiro ponto é que a demanda por óleo e gás continua existente por décadas, independentemente do cenário, porque o mundo tem hoje uma infraestrutura e um baixo custo desse tipo de energia, que é difícil de replicar ou substituir em uma velocidade mais rápida do que todo mundo gostaria. Então, óleo e gás continuam sendo necessários por décadas. E o gás primordialmente como um combustível de transição.

O quarto ponto são as novas tecnologias. Soluções baseadas na natureza para sequestrar carbono são necessárias, complementares a energias renováveis para que o mundo acelere a transição e chegue em emissões líquidas zero.

E o último fator: um reconhecimento de que geopolítica e transformações tecnológicas podem ser grandes game changers [virada do jogo], acelerando ou desacelerando alguma das rotas.

E o ingrediente Trump e as políticas tarifárias? Como interfere no cálculo dos cenários?

Não interfere no cálculo. Os cenários foram feitos antes do fenômeno das tarifas globais.

No cenário Arquipélagos, em que o mundo fica um pouco mais fragmentado, confrontacional e não colaborativo em relação a políticas de transição energética, cada país passa a olhar para o seu interesse próprio versus o interesse coletivo da humanidade em migrar para uma economia de baixo carbono. Esses elementos, que foram identificados pela Shell no cenário Arquipélagos, estão exatamente acontecendo agora e se materializando no que estamos vendo na política tarifária do governo americano.

Eles fazem, como consequência, que a jornada de transição energética leve mais tempo para se materializar. Então, o que aconteceu com o tarifaço do governo americano atual foi identificado pela Shell como um potencial cenário dentro do Arquipélagos.

Em abril, teve uma mudança na Shell que deu mais relevância para a unidade brasileira. A ação de Trump atrapalha isso de alguma forma?

A Shell está no Brasil há 112 anos, com crescimento exponencial da operação do país nos últimos 7 a 10 anos. Com isso, o Brasil foi elevado à posição de vice-presidência executiva global, reportando direto ao comitê executivo. O nível hierárquico subiu, e eu sento hoje numa mesa global podendo representar o país e fazer uma das coisas mais importantes para mim, que é brigar por mais investimentos no Brasil.

O país é o maior produtor de óleo do grupo. É o maior produtor de etanol, via a joint venture com a Cosan na Raízen. Temos uma grande comercializadora de energia, e estamos tomando algumas posições no mercado de soluções baseadas na natureza, tentando desenvolver um negócio de crédito carbono no Brasil. Temos várias linhas de negócios.

Mas sobre o impacto, que é a tua pergunta: a princípio, são poucos, porque o petróleo foi um dos itens que ficou fora, na lista de isenções. Parte do petróleo brasileiro é exportado para os EUA, mas a maioria vai para a Ásia, China em particular, e um pouco para a Europa. O que estamos observando e ainda tentando entender é: com a mudança de tarifa em vários países, qual é a consequência na cadeia de suprimento dos fornecedores de materiais, equipamentos para os projetos no Brasil? Qual impacto isso pode vir a ter, tanto do ponto de vista de custo para os meus projetos, como prazo de entrega? Esse estudo está acontecendo. Mas a nossa análise inicial é de um impacto pouco material para as operações da Shell no Brasil.

A empresa vai ter alguma iniciativa na COP30? Como pretende contribuir para o debate?

Uma das razões pelas quais decidimos fazer pela primeira vez o recorte de Brasil nos cenários globais foi justamente para que a Shell pudesse dar ao governo e à sociedade brasileira um estudo robusto como nossa contribuição dos potenciais caminhos que o Brasil pode tomar.

Esse recorte aponta potenciais políticas públicas que o Brasil pode vir a adotar para ser um grande ator na transição energética, contribuindo, consequentemente, para o debate da COP30. Nesta segunda (25), vamos apresentar a atualização dos cenários da Shell. Estamos fazendo um estudo que aponta que o Brasil larga na frente ante a maioria das grandes economias com boa parte do dever de casa da transição energética já feito. O Brasil tem a matriz energética mais limpa do mundo. Tem potencial na área eólica e solar. Temos o etanol, o biocombustível, que é o grande combustível da transição. O nosso estudo indica o potencial de triplicar a demanda de biocombustível em 2050 quando comparado a 2020.

Tem tudo para ser um grande ator no mercado de carbono. O estudo mostra que o Brasil tem vários exemplos construtivos que podemos apresentar para o mundo na COP30 do que já foi feito aqui, que pode ser replicado.

Podemos exportar políticas públicas, com o que foi feito no biocombustível. Temos potencial para atuar como grande fornecedor de energia. Óleo e gás têm competitividade. O petróleo brasileiro produzido na bacia de Santos tem uma intensidade de carbono com CO2 emitido por barril bem abaixo da média global. Ao consumir mais petróleo brasileiro, o mundo reduz as emissões globais. O Brasil pode ser um ator em exploração e produção de óleo e gás. Já mostrou que é um grande ator em renovável. Tem o bioetanol como indústria estabelecida que pode ser exportada ainda mais e tem a oportunidade de gerar crédito de carbono. Essa é a contribuição da Shell com esse estudo nos debates para a COP30.

Há um movimento no setor de recuo dos projetos de solar e eólica. Como está esse tema na Shell?

A Shell investiu US$ 45 bilhões em soluções de baixo carbono na última década. Entre 2023 e 2025, estamos investindo entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões em soluções de energia de baixo carbono.

Recentemente, foi feita uma atualização estratégica. Em vez de abrir novas frentes e continuar investindo em novos projetos, desaceleramos um pouco os novos projetos globalmente, não só no Brasil.

Aqui no Brasil, decidimos manter o etanol como principal veículo de transição energética e de economia de baixo carbono e paramos os projetos de desenvolvimento de solar, porque o mercado brasileiro estava saturado com muito projeto, o preço da energia, muito baixo. Preferimos não investir nesse momento.

E o debate de licenciamento ambiental no Brasil? Como estão acompanhando?

De perto, como todos na indústria. O Brasil tem uma das leis de licenciamento ambiental mais robustas da indústria globalmente, o que bom. Temos acompanhado com atenção o projeto de lei, os vetos recentes do presidente. Esse debate é saudável para conseguirmos, como sociedade, achar oportunidades de otimizar ou acelerar o processo de licenciamento sem comprometer o rigor necessário para não ter violação de questões ambientais em grandes projetos.

No leilão recente, vocês não entraram na Foz do Amazonas. Levaram Bacia de Santos? Por quê?

Depois da Petrobras, nós somos o segundo maior produtor de óleo e gás. Temos ativo em produção e agora em construção no investimento de Gato do Mato [projeto em águas profundas na área do pré-sal da Bacia de Santos]. Temos a área de exploração, onde nos últimos três anos adquirimos mais de 40 blocos em parceria, em várias geografias do Brasil.

A Shell acredita no futuro geológico, no potencial para continuar crescendo o negócio de exploração e produção no Brasil. Qual foi a estratégia da companhia nesse leilão recente? Há dois anos, compramos outros blocos na bacia Sul de Santos. Estudamos essa bacia e identificamos o potencial. Nesse leilão, nossa decisão estratégica foi concentrar os esforços e recursos, pessoas e dinheiro, para comprar quatro blocos adicionais nessa área em que já tínhamos vantagem competitiva e focamos de forma bem-sucedida, porque ganhamos os quatro blocos que queríamos no leilão nessa área, deixando a margem equatorial para eventuais futuros leilões.

Foi por causa da polêmica?

Não. Foi uma decisão estratégica de concentrar numa área onde já tínhamos a competitividade, onde vemos prospectividade e queríamos consolidar. Eu não tenho recurso para bidar [fazer oferta] em todos os blocos.

Joana Cunha/Folhapress



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Briga por níquel do Brasil expõe disputa global por minério vital para a transição energética



Foto: Divulgação
Complexo da mineradora Anglo American em Barro Alto (GO), para beneficiamento e refino de níquel 24 de agosto de 2025 | 14:00

Briga por níquel do Brasil expõe disputa global por minério vital para a transição energética

Na pequena Barro Alto, localizada na região norte de Goiás, o único semáforo instalado no centro da cidade parece não ter serventia. Com seus 12 mil habitantes, o município goiano segue um ritmo pacato, debaixo de um sol de 40 graus. Em nada aparenta ser o palco de uma disputa bilionária global por jazidas de níquel, um mineral crítico e estratégico para a indústria.

Barro Alto e suas montanhas do minério expõem, com fatos, os movimentos geopolíticos que têm mexido com o destino de nações como os Estados Unidos, a China, países da Europa e o Brasil.

A Anglo American, multinacional de origem sul-africana e britânica que opera na cidade desde 2004, decidiu vender no início deste ano sua planta de níquel para a MMG, um braço da estatal chinesa China Minmetals Corporation. Além da unidade de Barro Alto, entraram na negociação outra planta em Niquelândia (GO) e dois projetos novos de exploração, no Pará e no Mato Grosso.

O negócio avaliado em US$ 500 milhões, o equivalente a mais de R$ 2,7 bilhões, marca a entrada da chinesa MMG no mercado brasileiro de níquel, ampliando o alcance de Pequim sobre um insumo considerado vital para a transição energética. As reações, porém, foram imediatas.

Na Europa, a transação pode virar processo em apuração pela Comissão Europeia. No Brasil, conforme informações obtidas pela reportagem, o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) acaba de ser acionado. Por trás de acusações de concentração de mercado e de supostas negociações duvidosas está uma concorrente holandesa, a Corex Holding.

Controlada pelo bilionário turco Robert Yüksel Yıldırım, a empresa via nas minas brasileiras o passaporte para encarar a disputa global com os chineses no mercado do níquel. Dona de plantas de ferroníquel no Kosovo e na Macedônia do Norte, a empresa depende do mercado europeu para escoar sua produção. O negócio brasileiro a traria para as Américas.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Yıldırım disse que não desistiu da aquisição e afirma estar contrariado porque fez uma oferta que representava quase o dobro do valor pago pelos chineses. No entanto, não foi declarado vencedor.

“Vou ser muito honesto, meu preço foi de US$ 900 milhões [R$ 4,9 bilhões]. Coloque-se no meu lugar. Quando você dá um preço muito superior, quase o dobro do outro concorrente, espera pelo menos uma ligação explicando: ‘Yıldırım, por essas razões decidimos não vender para você, escolhemos o outro ofertante, o chinês’. Isso não ocorreu e não sei o motivo. Eles terão de explicar”, disse o empresário.

Na petição entregue em Bruxelas e no Brasil, a Corex afirma que a compra das unidades brasileiras pela MMG aumenta ainda mais a concentração de mercado sob controle chinês, fazendo com que ao menos 60% da oferta global de níquel fique nas mãos de empresas ligadas a Pequim.

“Essa operação ameaça a concorrência e também coloca em risco a segurança de suprimento da União Europeia”, argumentou a companhia, em sua petição.

O caso insere o Brasil em uma disputa maior. A China domina hoje o refino de minerais críticos como níquel, cobalto e terras raras, mas ainda depende de minas no exterior para alimentar suas fundições. Por isso, corre para adquirir ativos estratégicos em diferentes continentes.

A Comissão Europeia ainda não decidiu se vai abrir uma investigação aprofundada sobre a aquisição das operações brasileiras Anglo American pela MMG.

A ofensiva chinesa sobre minas e refinarias de níquel em todo o mundo, especialmente na Indonésia, tem derrubado os preços internacionais, dada a dimensão do controle asiático sobre produção e preços do insumo, que é usado na produção de aço inoxidável e baterias. Por esse motivo, a disputa no Brasil assume aspectos decisivos sobre os rumos do setor, um movimento acompanhado com lupa pela gestão de Donald Trump, nos EUA.

Na carta que enviou ao Cade, a Corex argumenta sobre a concentração de mercado. “No Brasil, as operações de Barro Alto e Codemin (Niquelândia) responderam por 62% da produção nacional de níquel em 2024. A concentração decorrente da operação é, portanto, alarmante”, afirma a empresa. Os dados da Anglo American apontam que essa fatia seria de 52%.

O Cade não comenta processos em andamento.

À reportagem, a Anglo American declarou que a venda de seu negócio de níquel “faz parte da simplificação do portfólio global da companhia, que visa focar na produção de cobre, minério de ferro de alto teor e nutrientes agrícolas”.

Sobre a escolha da oferta chinesa, a empresa declarou que “todo o processo de seleção dos interessados pelo negócio foi feito de forma rigorosa, buscando um comprador responsável” para assumir a operação. “A companhia acredita que o acordo com a MMG representa uma grande realização para os empregados, comunidades locais, acionistas e demais partes interessadas”.

Jorge de Carvalho, diretor de integração da MMG para a nova “Nickel Brazil”, empresa que vai tocar as operações dentro do grupo, disse que não há dinheiro estatal chinês na transação e que a MMG, que é estatal, está financiando a aquisição no Brasil com sua própria liquidez.

“Claro que a China Minmetals Corporation continua sendo nosso principal acionista e tem dado forte apoio a essa aquisição e à estratégia de crescimento da MMG”, declarou.

Questionado sobre como a MMG pretende lidar com questões regulatórias no Brasil, Carvalho disse que a companhia vai atender a todos os requisitos. “Nossa equipe trabalhará em estreita colaboração com os reguladores locais para compreender e responder de forma transparente a quaisquer questionamentos”.

A MMG preferiu não detalhar por que foi a vencedora da oferta. “A equipe da Anglo American é a melhor para falar sobre sua decisão e sobre quem estava competindo com a MMG pelo ativo. Na nossa visão, fazer negócio com a Anglo American foi especialmente importante, já que compartilhamos valores semelhantes”.

Arena da disputa, a pequena Barro Alto vive uma fase de expectativa. “A Anglo ajudou bastante o município a crescer, mas de uns anos para cá a cidade parou no tempo”, diz Iran Fernandes, vice-presidente da Aciaba (Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Barro Alto). “A mineração foi boa, porque tirou Barro Alto da pré-história, mas não colocou no futuro. Ficamos no meio do caminho. A MMG pode dar um F5 nisso. A gente espera que as coisas mudem”.

André Borges/Folhapress



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