Memorial das Matriarcas Odé Kayodé homenageia lideranças do candomblé da Bahia


Memorial das Matriarcas Odé Kayodé homenageia lideranças do candomblé da Bahia
Memorial das Matriarcas Odé Kayodé homenageia lideranças do candomblé da Bahia

Foto: Fernando Barbosa – Ascom/Ipac

A Bahia ganhou um novo espaço cultural dedicado à memória, à ancestralidade e à trajetória das principais matriarcas das religiões de matriz africana. O Memorial das Matriarcas Odé Kayodé foi inaugurado, na noite desta quinta (27),  na casa onde nasceu uma das mais importantes ialorixás do Brasil, Mãe Stella de Oxóssi (Odé Kayodé). O espaço integra o complexo museal do Solar Ferrão, na Rua Gregório de Matos, 45, no Pelourinho, e funcionará de terça a sábado, das 10 às 17h.

A iniciativa é do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura (Secult-BA), via Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac), e da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais (Sepromi). Fundamentado na museologia social e comunitária, o Memorial coloca as comunidades tradicionais de terreiro no centro das ações de preservação e difusão de saberes, práticas e objetos simbólicos, valorizando as memórias das matriarcas das casas primazes do candomblé.

Lideranças religiosas, o povo de santo e autoridades prestigiaram o lançamento do Memorial, que se consolida como um marco para a cultura afro-brasileira e reafirma o compromisso do Governo da Bahia com a preservação do patrimônio, o fortalecimento das comunidades tradicionais e a luta antirracista.

“Estamos aqui reverenciando o legado das matriarcas e reafirmando o poder da cultura na preservação de memórias e valorização da história e do sagrado. Para nós do Governo do Estado, é uma enorme satisfação abrir as portas desta casa, com todo esse legado e força, que vai impactar não só as pessoas do Pelourinho, mas todas que aqui passarem”, afirmou o secretário de Cultura da Bahia, Bruno Monteiro.

O projeto expográfico foi concebido para receber novas homenagens ao longo do tempo. O diretor-geral do IPAC, Marcelo Lemos, definiu o Memorial  como uma reverência às matriarcas do candomblé. “ Com sua coragem e sabedoria, essas matriarcas reafirmaram a força e ancestralidade do nosso povo, enfrentando preconceitos e intolerâncias. O Memorial é um espaço devalorização, respeito às tradições e às trajetórias dessas mulheres, sacerdotisas que nos deixam como legado a força do axé”.

Odé Kayodé

A primeira sacerdotisa homenageada é Mãe Stella de Oxóssi, celebrada no ano de seu centenário. Com curadoria de Mãe Ana de Xangô, yalorixá do Terreiro Ilê Axé Opô  Afonja, e de Ebgome Deusimar, o Memorial se apresenta como espaço de acolhimento, força e beleza.

“O que mais me emociona é sentir a presença de Mãe Stella em cada detalhe: nas fotografias, nos objetos, na palavra escrita, mas também no silêncio da casa, que guarda memórias que não se veem, apenas se sentem. É um lugar vivo, que conversa com o passado, celebra o presente e aponta para o futuro. Ao entrar nesta sala, parece que Maē Stella está lhe recebendo”, disse Mãe Ana de Xangô diante da foto da yalorixá.

Logo na entrada, à esquerda, o público encontra um conjunto de fotografias emblemáticas . À direita, uma linha do tempo apresenta a trajetória de Maria Stella de Azevedo Santos, iniciada no candomblé aos 14 anos por Mãe Senhora, no Ilê Axé Opô Afonjá, quando recebe o nome religioso Odé Kayodé, traduzido do iorubá como “o caçador traz alegria”.

Nascida em maio de 1925, Mãe Stella liderou o Ilê Axé Opô Afonjá por 42 anos. Paralelamente à sua atuação religiosa, formou-se na Escola Baiana de Enfermagem e Saúde Pública, na década de 1940, e atuou por mais de 30 anos como visitadora sanitária. Faleceu em dezembro de 2018, aos 93 anos.

Espaços expositivos

O Memorial reúne cinco espaços expositivos internos. Um deles abriga um terminal de vídeo com entrevistas de Mãe Stella. Em outro, o público pode viver uma experiência imersiva participando de um xirê digital criado pelo VJ Gabiru. Na área externa, um canteiro com folhas sagradas trazidas do Ilê Axé Opô Afonjá e um mural da artista Nila Carneiro homenageiam a yalorixá.

Mãe Ana de Xangô destaca que o eixo central do projeto é a educação crítica, humanista e inclusiva, defendida por Mãe Stella.  “O Memorial não oferece apenas objetos e memória, mas caminhos pedagógicos: atividades, oficinas, visitas guiadas, rodas de conversa. A ideia é transformar a curiosidade do visitante em conhecimento e, principalmente, formar jovens conscientes do valor de sua história e identidade”, explicou.

Para a secretária de Promoção da Igualdade Racial, Ângela Guimarães, o memorial é mais do que um equipamento cultural. “Ele (o memorial) é uma ação concreta de enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa. Historicamente tentaram silenciar a força do candomblé e das suas lideranças femininas. Ao celebrar a trajetória das nossas sacerdotisas, reafirmamos a centralidade das matriarcas na construção de uma Bahia plural, diversa e profundamente marcada pela herança africana”, afirmou.

Solar Ferrão

O Memorial das Matriarcas integra o conjunto arquitetônico do Solar Ferrão, cuja reabertura está prevista para janeiro de 2026. A quarta e última etapa das obras de requalificação está na fase final. Com investimento superior a R$ 2,4 milhões, provenientes do Governo Federal e do Governo da Bahia, esta é considerada uma das intervenções mais abrangentes já realizadas no espaço.

As obras contemplam a requalificação das instalações elétricas e hidrossanitárias, pintura da fachada e dos ambientes internos, adaptação de banheiros para pessoas com mobilidade reduzida e recuperação do telhado. O Solar também recebeu melhorias no sistema de segurança, com implantação do projeto de prevenção e combate a incêndio e pânico, incluindo hidrantes, corrimãos, guarda-corpos, sinalização de emergência e rotas de fuga.

Construído entre os séculos XVII e XVIII e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Solar Ferrão é um dos mais representativos exemplares da arquitetura colonial de Salvador. A requalificação preserva suas características originais, assegurando a continuidade do edifício como espaço de cultura, memória para a população baiana e visitantes.