O JUNCO E A CANGALHA


Dias atrás li no FB algumas postagens e comentários sobre o Junco (hoje Sátiro Dias), a emblemática cidade que serviu de pano de fundo para vários romances de Antonio Torres, em particular sua obra de maior referência, ESSA TERRA. O tema central desse começo de debate foi a comparação do Junco com Mocondo, o vilarejo onde se passa a história de CEM ANOS DE SOLIDÃO, de Gabriel Garcia Marques. E assim o Junco vai ganhando fama e se internacionalizando.

Mais uma obra em torno do Junco acaba de aparecer, dessa vez da lavra do escritor Luís Eudes, que vem a ser primo de Antonio Torres e, como ele, também nascido na já lendária cidade. Trata-se de CANGALHA DO VENTO, que recebi aqui em Lisboa, enviado gentilmente pelo autor. E, como não podia deixar de ser, trata-se de um pequeno romance com enredo na migração do interior do Nordeste para o Sul, especialmente São Paulo, como imposição de sobrevivência, tema que já rendeu tão belas e consagradas obras literárias. Numa imagem candente de humanidade um dos personagens assegura: “quando se bota o pé na estrada, não se olha mais para trás”. Mas a migração acaba sempre tendo mão dupla, pois ninguém esquece a terra em que nasceu e viveu seus primeiros anos e o destino é retornar às origens. Relembrando as ladeiras do Junco, descreve o autor: “São três estradas que trazem para nunca mais sair e levam para nunca mais voltar”.

As idas e voltas jamais serão fáceis. São caminhos de sofrimento, de luta e de resistência, guiadas pelas imagens da infância e dos amores que ficaram para trás, convite permanente para um retorno. “Ao longo desses anos ─ diz o autor sobre um dos seus personagens centrais ─ José Paulo conseguiu descobrir que não existe céu na terra”. Se existisse esse céu, ele seria a terra em que nascemos, e para a qual todos querem voltar um dia, nem que seja como uma aventura da memória.
Enfim, viva o Junco, que continua dando bons e saborosos frutos.

Paulo Martins
Escritor
Lisboa – Portugal